Festival Terras sem Sombra
Os “hórreos” das Astúrias foram os “frigoríficos” dos séculos passados
30 mai, 2026 - 13:35 • Maria João Costa , viajou a convite do Festival Terras sem Sombra
Na paisagem das Astúrias permanecem vários exemplares de “hórreos”, uma espécie de espigueiros que garantiam a conservação dos alimentos. O Festival português Terras sem Sombra promoveu um passeio pela região de Bueño e uma visita ao “Centro de Interpretación del Hórreo” para conhecer este património e meter mãos à obra.
Replicando o modelo do que promove em Portugal, o Festival Terras sem Sombra levou a cabo, este sábado, nas Astúrias, uma visita a um dos patrimónios da região. Na localidade de Bueño, em Ribera de Arriba, perto de Oviedo, realizou-se uma visita ao Centro de Interpretación del Hórreo.
Os “hórreos”, como se chamam em espanhol, são uma espécie de espigueiros, locais de armazenamento de alimentos e os mais antigos de que há registo foram edificados no século XVI. Em Bueño existem, ainda hoje, quase 50 dessas estruturas construídas em madeira e pedra.
Durante a visita, o guia e diretor do centro, Roberto Álvarez fez questão de explicar que estes “hórreos” não eram considerados bens imóveis, mas sim móveis, levando a que muitos deles fossem deslocados ao longo do tempo.
Eram os “frigoríficos” que permitiram durante vários séculos manter alimentos, não só cereais, como, com o passar dos séculos, outros produtos introduzidos na cadeia alimentar, como a batata ou o milho.
Roberto Álvarez, explica que estas estruturas dependiam da ventilação para conservar os alimentos e evitar que eles apodrecessem. “Secavam os cereais e os legumes para conseguir que a família e a comunidade pudessem gerir esses alimentos ao longo do tempo. Eram os ‘hórreos’ que garantiam a segurança alimentar”, descreve.
No Centro de Interpretación, em Bueño, o visitante fica a conhecer diferentes tipologias destes espigueiros, alguns deles muito parecidos com os do norte de Portugal, que também surgem num dos painéis explicativos.
Estas estruturas elevadas do chão, verdadeiros exemplos de arquitetura, foram mudando com o tempo. O guia deste centro das Astúrias indica que estes espigueiros, que começaram por preservar a castanha, centeio e espelta, mais tarde passaram também a conservar legumes como a ervilha, que era consumida depois de seca, ou o milho.
A introdução do milho alterou a estrutura do “hórreo” que passou a ter uma espécie de varanda em volta. Só mais tarde, no século XVIII, é introduzida a batata, alimento que, explica o guia, mudou os hábitos alimentares na Península Ibérica, bem como, uns anos depois, a introdução do pimento, que veio permitir melhorias na conservação de alimentos como a carne, através do uso do pimentão.
Nesta visita, o público do Festival Terras sem Sombra teve oportunidade de construir com as próprias mãos um “hórreo”, uma atividade promovida pelo centro, que tem uma estrutura à escala para o efeito.
É, tal como então, um trabalho de equipa. Nestes edifícios, cada peça de madeira encaixa “como um lego”, explica Roberto Álvarez que sublinha que eram usadas madeiras como o carvalho, mas também o castanho.
Sem vigas, estes “hórreos” tinham de ser preparados com as madeiras secas e poderiam levar uma semana a serem edificados. Nas ruas de Bueño subsistem alguns exemplares de estrutura quadrada, com pés de pedra. Muitos eram construídos junto a casas, mas há também muitos em espaços públicos.
À Renascença, o guia explica que este património mantém-se vivo hoje em dia. “Continuam a funcionar, mas como vive cada vez menos gente no campo e cultiva-se menos de forma tradicional, hoje ganham outras funções. Servem como habitação ou zona de armazém. Do ponto de vista cultural, as famílias têm hoje o objetivo de preservar este património”, remata.
- Noticiário das 20h
- 15 jun, 2026












