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Morreu o artista britânico David Hockney aos 88 anos

12 jun, 2026 - 11:20 • João Malheiro , com Reuters

Uma das obras mais reconhecidas de David Hockney é o quadro "Portrait of an Artist (Pool with Two Figures)" que foi vendido num leilão em Nova Iorque por 90 milhões de dólares, em 2018.

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David Hockney é considerado uma das mais importantes figuras da arte contemporânea do último século. Foto: Andy Rain/EPA
David Hockney é considerado uma das mais importantes figuras da arte contemporânea do último século. Foto: Andy Rain/EPA
David Hockney morreu aos 88 anos Foto: Victoria Jones/Pool via REUTERS/File Photo
David Hockney morreu aos 88 anos Foto: Victoria Jones/Pool via REUTERS/File Photo
Pintor David Hockney morreu aos 88 anos. Foto: Alfredo Aldai/EPA
Pintor David Hockney morreu aos 88 anos. Foto: Norbert Foersterling/EPA

O artista britânico David Hockney, uma das figuras mais influentes da arte contemporânea, morreu na quinta-feira, na sua residência, em Londres, aos 88 anos, anunciou a sua assesoria de imprensa.

"Uma das mais importantes figuras da arte contemporânea dos séculos XX e XXI morreu de forma pacífica, em casa, a 11 de junho de 2026, a um mês do seu 89.º aniversário", lê-se na declaração, citada pela Sky News.

O comunicado não refere qualquer causa de morte.

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Uma das obras mais reconhecidas de David Hockney é o quadro "Portrait of an Artist (Pool with Two Figures)" que foi vendido num leilão em Nova Iorque por 90 milhões de dólares (cerca de 77.705 milhões de euros), em 2018. Na altura, foi um valor recorde para uma obra de arte.

David Hockney cresceu no ambiente cinzento do norte de Inglaterra. Ainda em criança, reparou nas sombras bem definidas dos filmes de Hollywood protagonizados pela dupla cómica Laurel e Hardy.

“As sombras fortes significavam muito sol”, recordou o pintor numa entrevista à BBC, em 2009. “Por isso pensei: onde quer que seja esse lugar, lá está sempre sol.” Duas décadas mais tarde, Hockney mudou-se para Los Angeles para mergulhar nessa luz californiana deslumbrante.

Da "melancolia gótica do Norte" à liberdade

Numa fase inicial da sua carreira, Hockney era quase tão conhecido pela sua imagem como pelas suas pinturas: os óculos de armação grossa, o cabelo descolorado e os casacos dourados brilhantes tornaram-se símbolos da efervescente década de 1960 no Reino Unido.

Enquanto estudante de arte em Bradford, cidade do norte de Inglaterra onde nasceu, filho de um funcionário de contabilidade e de uma mãe metodista profundamente religiosa, Hockney desafiou convenções. Atribuía títulos às suas pinturas abstratas como Going to Be a Queen for Tonight (“Vou Ser Rainha Esta Noite”) ou Doll Boy (“Rapaz Boneco”), numa época em que a homossexualidade era punida com pena de prisão.

Em 1959, mudou-se para Londres para prosseguir os estudos. A sua ascensão no movimento da pop art britânica foi meteórica e levou-o a conviver com figuras como o bailarino Rudolf Nureyev e o músico Mick Jagger.

Contudo, Hockney sentia-se atraído pela energia e inovação que via nos artistas norte-americanos. Com o dinheiro obtido através da venda das suas obras, visitou Nova Iorque pela primeira vez em 1961, onde se tornou amigo de Andy Warhol. Três anos depois, instalou-se na Califórnia.

“Pensava que as pessoas que produziam aquele tipo de trabalho deviam viver rodeadas de cor, por isso fui à sua procura”, afirmou, segundo a biografia escrita pelo crítico de arte e amigo Peter Adam.

“Passei os primeiros 20 anos da minha vida na melancolia gótica do Norte. Aqui senti-me livre.”

As suas pinturas de piscinas e de homens nus em balneários tornaram-se ícones de um estilo de vida solarengo, que retratou através de tintas acrílicas luminosas, antes de dividir o seu tempo entre Los Angeles, Londres e Paris durante o final da década de 1960 e os anos 1970.

Apesar do sucesso, manteve uma postura despretensiosa.

“Na verdade, continuo a ser um estudante”, disse a Peter Adam. “Apenas acontece que tenho bastantes cartões de crédito no bolso.”

Em 1985, quando foi convidado para um jantar na Casa Branca com o Presidente Ronald Reagan, o então príncipe Carlos e a princesa Diana, foi retido durante meia hora pelos agentes de segurança por ter sido o único convidado a chegar a pé, relatou o seu biógrafo.

O operário da pintura e o regresso à Europa

As representações de amor, sexo e prosperidade material presentes na sua obra levaram alguns críticos a classificá-la como superficial. Ainda assim, Hockney alcançou um reconhecimento superior ao de qualquer outro artista britânico do século XX.

Uma das suas obras mais célebres, Portrait of an Artist (Pool with Two Figures), que retrata um homem a nadar debaixo de água enquanto outro observa a piscina, foi vendida em 2018 por 90,3 milhões de dólares, estabelecendo então o recorde para a obra mais cara de um artista vivo vendida em leilão.

Com o avançar da idade e uma vida mais tranquila, os cães passaram a ocupar o lugar dos homens nas suas pinturas, numa altura em que muitos dos seus amigos morriam devido à Sida.

Hockney revelou ter chorado durante dois dias quando Stanley, um dos seus adorados teckels, morreu em 2001, depois de ter sido eternizado em dezenas de pinturas e esboços.

No final da década de 1990, começou a regressar com maior frequência ao Yorkshire, região onde crescera, para visitar a mãe. Um amigo com uma doença terminal incentivou-o a pintar as paisagens locais.

Sentindo-se cada vez mais solitário, deixou a Califórnia e mudou-se para Bridlington, uma localidade costeira banhada pelo Mar do Norte. Durante uma década, pintou grupos de árvores despidas no inverno, campos carregados de colheitas maduras e caminhos que serpenteavam pelas suaves colinas da região de Yorkshire Wolds.

Foi o período mais produtivo de toda a sua carreira. Segundo o próprio, procurava captar cenários que se transformavam muito mais dramaticamente com as estações do ano do que as paisagens da Califórnia.

“Quem faz isto não se reforma”, afirmou à BBC, com o seu marcado sotaque de Yorkshire, quando questionado sobre a sua energia inesgotável. “Continua simplesmente a fazê-lo até cair para o lado.”

O antigo enfant terrible da arte britânica, quase sempre com um cigarro na mão, nunca deixou de experimentar novas técnicas. Utilizou o fax para partilhar obras e, mais tarde, os iPads para as criar. As suas pinturas de Yorkshire deram origem a um vitral para a Abadia de Westminster, em Londres.

Em 2018, Hockney adquiriu uma quinta na Normandia, no norte de França, e, com a ajuda do seu companheiro e assistente de longa data, Jean-Pierre Gonçalves de Lima, voltou a concentrar o olhar nos campos e flores do seu jardim. O friso A Year in Normandie, com 90 metros de comprimento, foi inspirado na Tapeçaria de Bayeux, com quase mil anos de história.

A ética de trabalho que o acompanhou ao longo da vida — moldada pelos anos em que se levantava diariamente às seis da manhã para trabalhar em hospitais, após recusar cumprir o serviço militar — manteve-se praticamente inalterada até aos seus últimos anos.

“Tenho tendência para pensar que se deve trabalhar todos os dias”, afirmou. “E é isso que faço.”

[notícia atualizada]

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