Opinião
Pequena história (portuguesa) do Estreito de Ormuz
06 mai, 2026 • José Miguel Sardica
A atual guerra no Médio Oriente veio demonstrar, mais uma vez, a enorme importância geoestratégica do Estreito de Ormuz para a navegação internacional.
A atual guerra no Médio Oriente veio demonstrar, mais uma vez, a enorme importância geoestratégica do Estreito de Ormuz para a navegação internacional e, por conseguinte, para a economia global. Desde tempos imemoriais, quem controla o Estreito controla o comércio de circulação que por ali passa; e o controlo deste significa poder oceânico no Índico e poder político no cenário global do mundo.
Modernamente – entenda-se, à escala descompartimentada do mundo inteiro – foram os portugueses os primeiros a compreenderem e a demonstrarem que o domínio de Ormuz não era só um feito militar de uma história nacional, mas uma peça fulcral de um pensamento estratégico muito mais vasto. Sob as ordens do rei D. Manuel I, Afonso de Albuquerque ergueu no Oceano Índico uma talassocracia que rivalizou com o poderio combinado dos “impérios da pólvora” terrestres – os Mogóis, na Índia, os Safávidas, na Pérsia (Irão), os Otomanos, na Síria/Turquia, e os Mamelucos, no Egito.
Dominando já a rota do Cabo a Sofala (em Moçambique), Albuquerque lançou as vistas para os dois golfos/estreitos que controlavam as passagens do Mediterrâneo e do Médio Oriente para a Índia. Apesar de ter ocupado a ilha de Socotorá entre 1507 e 1511, falhou, em 1513, no Estreito de Áden, à entrada do Mar Vermelho. Mas não falhou no mais precioso e importante Estreito de Ormuz. Tomou Mascate (Omã) em 1507 e de imediato dali lançou vistas sobre a ilha de Ormuz, diante da costa da Pérsia, onde a soberana fortaleza de Nossa Senhora da Conceição (hoje em ruínas) foi concluída em 1515. Entretanto, em 1510-11, dominou Goa e Malaca, estabelecendo assim uma rede de feitorias, entrepostos ou “hubs” comerciais que, depois, com Damão, Diu, Ceilão (Sri Lanka), Timor, Macau ou Nagasáqui, cimentaram o Estado Português do Oriente, estendido desde a costa de África ao Oceano Pacífico.
Estabelecidos em Ormuz, os portugueses passaram a dividir as receitas das alfândegas do Estreito com o pequeno reino árabe que até aí dominara a zona e que pagava vassalagem ao contíguo reino da Pérsia. No auge do século XVI, o Índico era um “mare clausum” português e a alfândega de Ormuz, ponto de encontro de mercadores portugueses, árabes, persas ou indianos, uma das mais rendosas para os cofres de Lisboa, pois, como escreveu João de Barros, por ali “passa[va]m todas as coisas estimadas do mundo”. E além de Ormuz, os portugueses detinham também, a oeste da ilha, Mascate e, no norte do Golfo Pérsico, o porto de Bassorá (no atual Iraque).
O século XVII trouxe uma viragem na diplomacia persa. Os Xás começaram a ressentir que os portugueses não lhes pagassem tributo pela ocupação de Ormuz e tinham doravante um novo aliado europeu – a Inglaterra, entretanto aportada ao Índico – para contrabalançarem a supremacia lusa no Golfo e nos mares. Foram os ingleses que ajudaram os Safávidas a conquistar Ormuz em 1622, pondo termo a 115 anos de domínio luso (já subsumido na monarquia dual dos Filipes) no Golfo Pérsico. Em 1641, seriam os holandeses da Companhia das Índias Orientais a tomar Malaca; e em 1650, o Sultanato de Omã a recuperar Mascate, e a tomar também, já no final do século XVII, Mombaça e Zanzibar. Restou o Estado da Índia, Macau e Timor – mas o nervo do império português transitou então definitivamente do Índico para o Atlântico luso-brasileiro. Ormuz também desapareceu da história, sobretudo porque os Xás passaram a apostar no porto continental de Bandar Abbas. Mas a importância absoluta do Estreito não. No passado por causa das especiarias, das joias ou das sedas, no presente por causa do petróleo, do gás ou dos fertilizantes, por ali continuam a circular as riquezas do mundo e, por isso, também as perspetivas globais da guerra e da paz.
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