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Madalena Fontoura
Opinião de Madalena Fontoura
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Aquela porta aberta

02 abr, 2025 • Madalena Fontoura • Opinião de Madalena Fontoura


João Paulo II era um homem uno, inteiro, entregue. O segredo da sua humanidade era essa união total com Jesus. Nada havia nele fora desse abraço.

Dezembro de 1991. Sou auditora do Sínodo extraordinário dos Bispos para Europa. Todos os dias me surpreendo de estar naquele anfiteatro. De olhos postos no Papa João Paulo II, que preside, tenho a Igreja literalmente aos meus pés: cardeais, bispos, padres, leigos e, por fim, nós, os quatro jovens escolhidos na Jornada Mundial da Juventude de Czestochowa.

Somos os mais entusiasmados, sem dúvida. Muitos dos presentes parecem habituados. Vão-se logo embora quando acabam as sessões. Nós ficámos pregados ao chão de olhos grudados no Papa a ver se ele nos faz algum sinal. Acontece quase todos os dias. E nós descemos as escadas a correr, só para o cumprimentar e beber daquela humanidade vigorosa, daquele porte de homem livre, daquele sorriso que nos trespassa até à medula. Vamos lá para isso. Porque se toca Cristo quando se toca aquele homem.

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O Sínodo é feito de intervenções curtas que se sucedem. Muito variadas. Da Europa ocidental, discursos mais políticos. Do Leste, testemunhos em carne viva da Igreja perseguida durante décadas. João Paulo II escuta com atenção e a sua linguagem corporal é tão eloquente que arrepia. Se aprecia o que é dito, põe a mão em concha atrás da orelha, como para ouvir melhor. Se lhe parece menos oportuno, tamborila com os dedos na mesa. Se a discordância é mais séria, começa a passar as contas do terço. Se o que se ouve passa das marcas – e às vezes passa – abre a Liturgia das Horas e reza em silêncio ali mesmo. Guia-nos sem falar, só com a sua presença e a sua escuta exigente.

Um dia, chega-me à mão um convite para jantar com o Papa. Achei que era engano, quis devolver, esfreguei os olhos para ver melhor. Era verdade. João Paulo II jantava todos os dias com grupos de cerca de 12 pessoas presentes no Sínodo.

Chegado o dia, fomos conduzidos à Biblioteca do apartamento papal. Depois de apresentados um por um, João Paulo II avançou por um corredor. E nós atrás dele. Do lado esquerdo desse corredor, havia uma porta aberta. O Papa entrou. E nós atrás dele. Era a sua capela privada. Sem dizer uma palavra, ajoelhou-se e ficou ali cerca de dez minutos em silêncio. E nós com ele.

Que lugar! O sacrário ao centro. Encimado por um crucifixo enorme. Junto à cruz, o ícone da Virgem negra de Jasna Góra. De um lado e do outro, dois painéis de mosaicos com os martírios de Pedro e Paulo. Nada que enganar. Toda a raiz da missão do Papa. E João Paulo II rezava ali todos os dias, longamente. Eu não sei se rezei. Ou se olhei só. Enquanto me gritavam perguntas. Porque é que ele não diz nada? Não introduz aquele momento? Não guia a oração? Nunca mais se levanta? E porque é que a porta da capela está aberta?

E ele dobrado em oração, parecendo sozinho com o seu Senhor. E a sua Senhora. A certa altura levantou-se. Sempre sem dizer nada, saiu. E nós com ele. No fundo do corredor era a casa de jantar. E começou então aquele jantar memorável de simplicidade, humanidade e densidade. Haveria tanta coisa para contar. Mas o que nunca mais me saiu da cabeça foi aquela porta da capela que estava aberta. Porquê, se naquela visita nada foi negligenciado?

Pensei nas portas das igrejas e capelas que conhecia. Tantas vezes belíssimas e imponentes. Transpomos a porta e passamos do profano ao sagrado. Lá dentro é espaço de silêncio e oração. Quando saímos voltamos ao barulho e à distração. Mas a porta da capela do Papa estava aberta. E, de repente, fez-se-me luz. Talvez João Paulo II não tivesse essa divisão. Talvez nele não houvesse o profano e o sagrado, o fora e o dentro. Talvez ele vivesse diante de Jesus, fora e dentro da capela. Talvez tudo nele fosse de Cristo. E isso explicava tanta coisa. Passei a olhá-lo assim. E, de facto, só podia ser esse o segredo. João Paulo II era um homem uno, inteiro, entregue. O segredo da sua humanidade era essa união total com Jesus. Nada havia nele fora desse abraço.

O jantar terminou. Com uma nova passagem pela capela. Cuja porta continuava aberta. Desta vez foi mais breve. À saída, as despedidas. Tinha preparado tantas coisas para dizer e aquele nó na garganta a estragar tudo. Balbuciei: “obrigada, Santo Padre!”. Respondeu-me por dentro de um sorriso meio bondoso, meio maroto, com uma expressão bem portuguesa: “obrigadíssimo!”

Vinte anos depois, obrigada, Santo Padre! Por tudo, por tanto! E por essa porta aberta, obrigadíssima!


Madalena Fontoura, professora e psicóloga

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