03 abr, 2025 • Pedro Mesquita
Mais vale responder sem demoras à pergunta apresentada no título, para avançarmos depois no texto, rumo a uma nova palavra que vai circulando na internet: "Breturn".
Qual será, afinal, "o link" entre a Defesa europeia, o Brexit e o Relatório de Mario Draghi? O tema é lançado por João Cotrim de Figueiredo, da Iniciativa Liberal, que também dá a resposta: "Cada um destes temas - quer a Defesa, quer o Brexit, quer o Relatório Draghi - evidencia necessidades de reformar as alianças de que fazem parte. E todas estas alianças estão em crise".
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O eurodeputado, vice-presidente do Renovar a Europa, sublinha que elas “são difíceis de criar e de manter”, porque “implicam reduções significativas de soberania ou a existência, ao mesmo tempo, de vencedores e vencidos, um tratamento desigual entre países, entre populações ou entre setores”.
Em entrevista à Renascença, João Cotrim de Figueiredo assinala, por outro lado, e com visível agrado, a reaproximação do Reino Unido à União Europeia, nos últimos meses.
Ainda assim, o eurodeputado não acredita que esteja para breve um “Breturn” (uma das fórmulas que circulam na internet para designar um eventual regresso da Grã-Bretanha à União Europeia): “Pois… há quem lhe chame o 'Brentry' ou o 'Breentry'. Eu acho que não. Eu acho que o clima político inglês e britânico, de uma forma geral, está a mudar, mas o referendo de 2016 está ainda demasiado fresco na memória de muita gente” para se pensar num regresso do Reino Unido à União Europeia".
“Agora, a conscientização de que houve erros cometidos na altura da saída e de que haveria vantagens numa integração económica mais forte, com a União Europeia, começam a ser maioritários na sociedade inglesa. Mas ainda estamos a muitos anos de conseguir voltar a ver, aquilo que para mim me agradaria muito, que são os ingleses no seio da União Europeia, de novo.”
Porque é que diz que existe um “link” entre a Defesa, o Brexit e o Relatório Draghi?
É um link que parece difícil de encontrar, mas ele existe. Cada um destes temas - quer a defesa, quer o Brexit, quer o Relatório Draghi - evidenciam necessidades de reformar as alianças de que fazem parte: seja a aliança de defesa, que tem feito a defesa da Europa; seja a aliança política que, no fundo, é a União Europeia; seja a aliança económica, consubstanciada no mercado único e nas regras de funcionamento interno da União Europeia. E todas estas alianças estão em crise.
Fazendo o recurso a uma espécie de taxonomia das alianças, elas são tão mais difíceis de criar e de manter por quanto implicam reduções significativas de soberania ou a existência, ao mesmo tempo, de vencedores e vencidos...portanto, um tratamento desigual entre países, entre populações ou entre setores.
Em entrevista exclusiva à Renascença, o presidente(...)
Qual é a solução para reformar estes subsistemas em crise?
A relação principal disto com o Brexit, por exemplo, é que o Reino Unido se aproximou muito mais da União Europeia nos últimos meses, em que se viu obrigado a ter um papel mais protagonista na defesa, do que quando sentiu dificuldades económicas após a saída.
E já que fala nisso, estamos a aproximar-nos de um "Breturn" (regresso da Grã-Bretanha à União Europeia)?
Pois, há quem lhe chama o "Brentry" ou até o "Breentry". Eu acho que não. Eu acho que o clima político inglês e britânico, de uma forma geral, está a mudar, de facto, mas o referendo de 2016 está ainda demasiado fresco na memória de muita gente para se pensar num regresso à União Europeia. Agora, a consciencialização de que houve erros cometidos na altura da saída, e de que haveria vantagens em ter uma integração económica mais forte com a União Europeia começa a ser maioritária na sociedade inglesa. Mas ainda estamos a muitos anos de conseguir voltar a ver, aquilo que para mim me agradaria muito, ver novamente os ingleses no seio da União Europeia.
E esse pilar, portanto, não é fácil resolver para já...
Não, mas a nível de defesa, por exemplo, foi relativamente fácil construir esta coligação de boa vontade, a coligação de vontades, "coalition of the willing". Foi relativamente fácil construir porque se não houver uma defesa eficaz da Europa só temos vencidos, não temos quem ganhe e quem perca. Portanto, na defesa é relativamente mais fácil de promover entendimentos. Há inimigos comuns, há perigos comuns e aí é mais fácil. A questão económica é um pouco mais difícil, e a questão política é muito mais difícil.
Mas são necessárias respostas no imediato. Esta aproximação do Reino Unido, através dessa unidade acima da União Europeia, está a conseguir resolver os problemas todos?
Vamos ver. Essa coligação, a formalizar-se efetivamente, não é a única parte neste conflito. Há desde logo os ucranianos, em cujo território se combate, e depois há o agressor que tem de ser parte da solução, tem de aceitar o cessar-fogo, desde logo, e depois tem que respeitar as regras desse cessar-fogo e da paz duradora... e, aparentemente, os Estados Unidos que querem fazer deste conflito uma espécie de demonstração do seu poder de influência no mundo, enquanto polícia do mundo. Portanto, todas estas partes têm de estar de acordo sobre aquilo que venha a ser o desenho final da "paz justa e duradoura" no território ucraniano.
De certa forma, concluo das suas palavras, a União Europeia é quase inoperante porque é preciso uma ligação acima, juntando o Reino Unido, para se tentar avançar?
É, neste primeiro momento, porque nunca teve uma estrutura militar propriamente dita e eu também não advogo que venha a ter. Agora, tem órgãos políticos que podem decidir integrar depois, a partir dos estados maiores dos Estados membros, essas estruturas militares. E tem o pilar europeu da NATO que pode, e deve, ser reforçado e autonomizado em relação ao restante da NATO para poder fazer esse papel.
Uma coisa é certa, e os nossos ouvintes percebem isto à primeira: Se não houver uma força de manutenção de paz e essa força, tudo indica, só poderá ser composta por forças europeias, não há "paz duradoura na Ucrânia", estou convencido disso. A Europa, mesmo que num primeiro momento seja relativamente secundária, a prazo é absolutamente essencial para a solução.