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José Miguel Sardica
Opinião de José Miguel Sardica
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Adolescer

02 abr, 2025 • Opinião de José Miguel Sardica


Quantos Jamies em potência conhece cada um de nós?

Uma minissérie visualizável pela internet (Netflix) que expõe os possíveis males dessa mesma internet. Constatada a ironia, vamos ao merecido elogio e à indispensável reflexão. «Adolescência» tem apenas quatro episódios, filmados em “takes” únicos, o que reforça a continuidade da narrativa e cria um maior efeito de proximidade, como se o espetador estivesse “ali”, ao lado dos protagonistas. As quatro horas de duração total constituem quase uma peça de teatro em quatro atos, espaçados no tempo (dia 1, dia 3, 7 meses e 13 meses), com ação que decorre na esquadra da polícia, na escola, na visita da psicóloga ao reformatório e numa (triste) manhã de aniversário da família. O “storytelling” da minissérie do momento cria um efeito claustrofóbico e sufocante de interrogações e emoções. E como que num efeito circular, termina no mesmo quarto e na mesma cama onde (quase) começa, sem que os protagonistas inocentes da trama consigam responder aos porquês do drama que se abateu sobre as suas cabeças.

Não quero ser spoiler, por isso recordo apenas o resumo público de «Adolescência». Jamie Miller, um anónimo rapaz de 13 anos, é preso sob suspeita de ter assassinado à facada uma colega ou amiga de escola, Katie. Depressa se percebe que o crime foi perpetrado; a série, contudo, não é tanto sobre aquele adolescente, mas sobre a condição da adolescência e sobre os atuais processos que fazem as crianças-jovens “adolescer”. É por isso que o espetador nunca acede ao concreto porquê daquele crime, cometido por Jamie sobre Katie: o “porquê” é anónimo; o “porquê” é o vórtice em que qualquer miúdo, de qualquer família, de qualquer meio escolar, cidade ou país pode cair, desde que adolescer se tornou (na vigente Geração Z) ser (des)educado por ecrãs, pela internet e pela bolha das redes sociais, que hoje modelam autorrepresentações, bullyings, isolamentos, traumas, líbidos, amizades e ódios.

A puberdade de Jamie é a metáfora da inadaptação de tantos e tantos miúdos (e miúdas), tentativamente sublimada pela busca de solidariedade ou popularidade pelos “k” que cada um consegue nas redes sociais onde projetam uma pseudo vida. Por isso há hoje uma “manoesfera” (que é “machoesfera”) para eles, como haverá o equivalente “menino não entra” para elas. Em seres humanos em que a personalidade ainda está em moldagem, a dependência face à internet é avassaladora e perniciosa. Isolados horas a fio, fechados nos seus quartos – a série explana muito bem a ideia de que o que deveria ser uma zona de segurança é, afinal, uma zona de muitos perigos… – os adolescentes descolam da realidade, dos irmãos, dos pais, das rotinas familiares de interação. O virtual é, para eles, o real, e quando os ódios de linguagem vazados num “post” ou num “reel” saem à rua, a violência contra quem os despreza é a continuação da “manoesfera” por outros e trágicos meios. Jamie era desprezado por Katie; uma noite Jamie descontrolou-se perante quem o desprezava e o desfecho foi um crime de misoginia na idade da afirmação. As lágrimas da psicóloga que entrevista Jamie são a confissão de que o mal está muito para lá do miúdo que ela tem diante de si.

Quantos Jamies em potência conhece cada um de nós? Os malefícios da internet na educação dos mais novos não são só consequência de pais irresponsáveis ou demissionários – mesmo que essa seja a pergunta corrosiva que os pais de Jamie se fazem, entre o choque inicial da revelação e as lágrimas sufocantes em cima de um peluche no fecho da série. São o efeito mais vasto de anos de erosão de valores, de apagamento de sociabilidades reais, de iliteracia tecnológica, de voragem material ou de escolas onde os professores não têm condições para (também) serem educadores. É por tudo isso que o (sub)mundo de Jamie era o seu telemóvel ou computador.

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