12 mar, 2024 - 14:25 • Inês Braga Sampaio
Se Maradona fez a festa nos dois anos em Barcelona, com títulos e uma rara ovação no Santiago Bernabéu, a vida de Diego foi mais difícil. Foi apenas em Nápoles que Diego e Maradona foram felizes. Esta terça-feira, só um dos dois antigos clubes do argentino ficará a sorrir.
Barcelona e Nápoles defrontam-se na segunda mão dos oitavos de final da Liga dos Campeões, a partir das 20h00, em Camp Nou. O primeiro jogo da eliminatória, em Itália, terminou empatado a um golo.
Quem não poderá ver as duas antigas equipas jogar é Diego Maradona, que morreu em 2020, aos 60 anos, vítima de paragem cardiorrespiratória, depois de uma operação a um coágulo no cérebro. A vida de "El Pibe" foi praguejada de doenças, uma das razões, precisamente, para a saída do Barcelona.
Na primeira época, foi diagnosticado com hepatite, em dezembro de 1982. Logo no início da segunda, uma entrada dura de Andoni Goikoetxea, conhecido como "o Carniceiro de Bilbau", tirou-o de combate durante três meses, devido a uma fratura do tornozelo. Começou aí uma rivalidade entre Maradona e o Athletic de Bilbau que teria repercussões nessa mesma temporada.
Não era só em campo, ou devido à saúde, que Maradona tinha problemas. O antigo jogador também tinha desentendimentos com os dirigentes do Barcelona, em particular com o presidente, Josep Lluís Núñez, o seu maior inimigo no clube e o homem que disse "sim", no verão de 1984, à venda do "Pelusa" ao Nápoles.
Numa entrevista antiga à TV3, recuperada em 2020 pelo jornal "Mundo Deportivo", Núñez explicou que a decisão se deveu a vários fatores, entre a promessa de uma venda lucrativa, a imagem que considerava que os jogadores do Barcelona deviam projetar e os problemas de Maradona com as drogas.
"Tinha uma queixa da polícia, que me disse para ter muito cuidado com o assunto [uso de drogas por parte de Maradona]. Falei com ele e ele disse-me que não era verdade. Pelo menos, foi o que me disse. O Barcelona tem de ter jogadores com uma imagem refinada, que não procuram conflito e que beneficiam a imagem do clube", argumentou.
Presidente entre 1978 e 2000, e falecido em 2018, Núñez disse, também, não entender "um jogador que deixa o Barcelona porque tinha um contrato melhor mas diz que a culpa foi presidente".
A gota de água chegou no reencontro entre Barça e Athletic, na final da Taça do Rei, no Santiago Bernabéu, casa do Real Madrid, no dia 5 de maio de 1984.
Depois de nova entrada dura de Goikoetxea (várias entradas bem rijas e não apenas do "carniceiro"), e já consternado com os insultos xenófobos - relacionados com a ascendência nativo-americana do seu pai - dos adeptos bascos, Diego Maradona perdeu o controlo após uma provocação de Miguel Sola.
O argentino levantou-se, encostou a testa ao espanhol e, após umas quantas palavras aparentemente pouco simpáticas de lado a lado, o caos rebentou. O melhor é mesmo ver o vídeo:
Foi uma luta longa, violenta e com o então rei de Espanha, Juan Carlos, e uma audiência de 100 mil espectadores no estádio e uns quantos milhões em casa a assistir. Foi a luta que selou o destino de Maradona.
"Quando vi aquelas cenas de Maradona a lutar e o caos que se seguiu, percebi que não poderíamos continuar com ele", afirmou um antigo dirigente do Barcelona, citado no livro "Maradona: A Mão de Deus", de Jimmy Burns.
Foi, de facto, a última memória de Diego com a camisola "blaugrana". A federação baniu-o do futebol espanhol por três meses, contudo, o argentino nunca chegou a cumprir a pena. Em junho, pediu para sair do Barcelona e o clube vendeu-o por 7,5 milhões de dólares (1.185 milhões de pesetas).
Maradona deixou Espanha com uma Taça do Rei, uma Taça da Liga e uma Supertaça de Espanha, e com 38 golos marcados em 58 jogos pelo Barcelona. Foi apresentado como jogador do Nápoles a 5 de julho de 1984, perante um San Paolo em apoteose.
"[Os adeptos] estavam convencidos de que o salvador tinha chegado", contou o historiador David Goldblatt, em entrevista à ESPN, em 2012. Um jornal local, também citado pela ESPN, até escreveu: "[Apesar da falta de] presidente da Câmara, habitação, escolas, autocarros, emprego e sanitização, nada disso importa porque temos Maradona."
O novo ídolo dos sul-italianos retribuiu o carinho com o primeiro e o segundo "scudetti" da história do clube italiano, em 1987 e 1990 – os únicos até 2023 –, além de uma Taça de Itália, uma Supertaça e uma Taça UEFA. Foi também durante esse período que se sagrou campeão do mundo pela Argentina.
Os últimos anos de Diego Maradona no Nápoles foram mais complicados, ensombrados por problemas fora de campo, como o consumo de cocaína, indisciplina e até um escândalo relativo a um alegado filho ilegítimo, além de supostas suspeitas por ligações à máfia siciliana Camorra.
Ainda assim, os sete anos de ligação foram tão marcantes que o clube retirou o número 10 e, após a morte do seu ídolo, em 2020, mudou o nome do seu palco para Estádio Diego Armando Maradona.
Agora, os dois clubes mais marcantes do "10" na Europa – ainda passou, de forma fugaz, pelo Sevilha – vão lutar por um lugar nos quartos de final da Liga dos Campeões. Diego Maradona será presença indelével.