25 mar, 2025 - 06:00 • Anabela Góis
Representantes de países de todo o mundo reúnem-se a partir desta terça-feira na Colômbia, a convite da Organização Mundial da Saúde (OMS), para consolidar estratégias multissetoriais com o objetivo de reduzir a poluição do ar, travar as alterações climáticas e mitigar os seus impactos devastadores na saúde pública.
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A poluição do ar é considerada uma das maiores ameaças ambientais à saúde humana. A OMS estima que cerca de sete milhões de pessoas morrem todos os anos devido, principalmente, a doenças respiratórias e cardiovasculares.
Em declarações à Renascença, João Fonseca, alergologista e professor de Inovação Biomédica da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, afirma: “A saúde humana depende, cada vez mais, da saúde do planeta.”
Ao identificar os fatores de risco para doenças cardiovasculares ou o aumento da incidência de cancro, o investigador sublinha que “pensamos na alimentação, no sedentarismo, nas condições sociais, que são fatores muito importantes”, mas acrescenta que "a poluição, seja interior ou exterior, está ao mesmo nível de gravidade e tem grande influência na mortalidade e, ainda mais, na morbilidade”.
Entre os principais responsáveis pela poluição atmosférica, João Fonseca destaca os gases associados ao diesel e aos combustíveis fósseis, as fábricas, a produção de plásticos, bem como os efeitos da agricultura intensiva - com elevado uso de fertilizantes e pesticidas. A estes somam-se fatores pontuais mas significativos, como os incêndios florestais.
Esta poluição exterior está na origem de partículas finas que provocam acidentes vasculares cerebrais, doenças cardíacas, cancro do pulmão e doenças respiratórias, tanto agudas como crónicas.
No ambiente doméstico, as fontes de poluição atmosférica incluem o uso de energias poluentes, materiais de construção e produtos como detergentes.
Para João Fonseca, por mais importante que seja alcançar um acordo internacional para reduzir a poluição do ar, é “essencial que cada um de nós dê o seu contributo, porque há um conjunto de parâmetros que, depois de ultrapassados, têm efeitos diretos na saúde humana”. E adverte: “Não há sistemas de saúde que aguentem. A prevenção - neste caso, através da melhoria da saúde do planeta - é fundamental”.
O presidente do Conselho Português para a Saúde e Ambiente, Luís Campos, manifesta grande preocupação com o futuro. “Numa altura em que uma em cada quatro pessoas, a nível global, morre por causas ambientais, 2024 foi o ano mais quente de sempre e pode ter sido o mais fresco do resto das nossas vidas.”
O impacto do aquecimento global na saúde humana vai muito além das doenças cardiovasculares ou respiratórias, abarcando também alergias, cancro e o aumento de doenças transmitidas por mosquitos e por animais - as chamadas zoonoses, que estão na origem de todas as pandemias conhecidas e cujo risco cresce com a desflorestação e a maior proximidade entre seres humanos e animais selvagens.
Luís Campos alerta ainda para as doenças relacionadas com a qualidade da água, dos alimentos, os efeitos extremos das ondas de calor e, por fim, os impactos na saúde mental, com destaque para a ecoansiedade, que afeta sobretudo as gerações mais jovens.
“Estamos perante uma questão de extrema complexidade”, afirma o presidente do Conselho Português para a Saúde e Ambiente, referindo-se à conjugação entre o crescimento populacional, as alterações climáticas, a degradação ambiental e a perda de biodiversidade. “Desde 1970 que o planeta não tem capacidade de regeneração para suportar o ritmo de crescimento da população.”
Reduzir as emissões de gases com efeito de estufa é, segundo Luís Campos, um desafio internacional que exige a cooperação entre nações, o compromisso político de cada país e o envolvimento individual de todos os cidadãos.
A presidência de Donald Trump nos Estados Unidos, considera, veio agravar a situação. Um exemplo disso é o setor da saúde, responsável por 4,4% das emissões globais.
“Os EUA são responsáveis por cerca de um quarto dessas emissões. Per capita, o setor da saúde norte-americano polui sete vezes mais do que a China e cinco vezes mais do que a Índia. Devia, por isso, liderar os esforços de redução da pegada ambiental”, sublinha Luís Campos.
O negacionismo climático por parte da liderança de um dos principais poluidores mundiais constitui, para o especialista, “um enorme revés para os esforços que estavam a ser feitos para reduzir para metade as emissões até ao fim da década” - o corte necessário, segundo a ciência, para limitar o aquecimento global a 1,5 °C acima dos níveis pré-industriais.
Cerca de 47 milhões de pessoas já subscreveram um apelo global por medidas urgentes para combater a poluição atmosférica. O documento será apresentado esta semana durante a II Conferência Global sobre Poluição do Ar e Saúde, que decorre de 25 a 27 de março em Cartagena, na Colômbia.