05 abr, 2025 - 09:33 • Miguel Marques Ribeiro
A Eutelsat já iniciou contactos com a União Europeia para substituir os satélites operados pela Starlink, de Elon Musk. “Estamos em contacto com a União Europeia e com vários governos europeus para ver até que ponto podemos potencialmente substituir a capacidade americana em toda a Europa”, diz à Renascença a porta-voz Joanna Arlington, chefe do departamento de Comunicação e Relações de Investimento da empresa.
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Segundo a Reuters, a federação alemã financiou a prestação de serviços de conectividade da Eutelsat em solo ucraniano durante o último ano. Arlington reconhece que existe um "interesse efetivo em saber se a Eutelsat poderia ser um substituto da Starlink.”
Os satélites são fundamentais para assegurar a conexão de internet em zonas remotas ou onde a infraestrutura de comunicações foi afetada, como é o caso da Ucrânia, devido à guerra com a Rússia. Sem o sinal emitido por esses dispositivos que orbitam à volta da Terra, os soldados não conseguem comunicar entre si.
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A empresa de Elon Musk é a maior do planeta, gerindo mais de sete mil satélites LEO (low earth orbit ou de baixa órbita terrestre). Um número muito superior aos mais de 600 detidos pela Eutelsat, através da sua subsidiária britânica OneWeb, o que lhe garante, para já, a segunda posição global neste setor.
No entanto, quando o milionário ameaçou suspender o serviço da Starlink na Ucrânia, e pôr fim assim a um contributo decisivo para o esforço de guerra contra Putin, os alarmes soaram em Bruxelas e noutras capitais do Velho Continente. Uma desconfiança agravada pelo afastamento estratégico que Trump está a promover relativamente à Europa, desde que chegou à Casa Branca.
“Em geral, o espaço tornou-se a nova fronteira de potenciais conflitos” - Joanna Arlington
“De repente”, explica Arlington, os países europeus “estão muito interessados em não depender da América, nem para a proteção, nem para a defesa, nem para nada”.
Neste contexto, os satélites tornam-se centrais em termos de geo-estratégia e de segurança. O conflito da Ucrânia "É a primeira guerra onde se tornou evidente que os satélites têm um papel a desempenhar", afirma a porta-voz. "O espaço tornou-se a nova fronteira de potenciais conflitos (...) à semelhança do que acontece com a terra, o ar e o mar”.
Para além da Starlink, a Amazon, com a constelação Kuiper, é outro player importante no mercado. O facto de ambas as empresas produzirem os seus próprios satélites, com base num modelo de negócio “totalmente integrado” trouxe dissabores às empresas europeias.
"A Europa vai começar investir mais na sua própria soberania e nas suas próprias infra-estruturas, o que incluirá o espaço” - Joanna Arlington
Fabricantes como a Airbus, Talhes e Leonardo “sentem dificuldades” ao nível da procura e “não estão numa posição forte”, porque há uma parte significativa do mercado no qual deixaram de poder trabalhar, assinala a representante da Eutelsat.
No entanto, os desenvolvimentos recentes da política internacional “fazem crer que a Europa vai começar a investir mais na sua própria soberania e nas suas próprias infra-estruturas, o que incluirá o espaço”.
Impulsionadas por este contexto, as ações da Eutelsat chegaram a valorizar mais de 70% nas últimas semanas. Joanna Arlington acredita que as empresas europeias podem colocar-se “numa posição mais forte” num futuro próximo.
Até porque, apesar da forte concorrência, a Europa “tem algumas das maiores empresas espaciais do mundo” e “muita experiência no setor espacial”. “Esse é o lado positivo”, admite Arlington.
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Assim, se a Eutelsat continuar a prosperar isso pode também representar um aumento de encomendas para a indústria europeia e favorecer por essa via o sector como um todo.
“Os satélites que temos na nossa carteira de encomendas são feitos na Europa”, sublinha a porta-voz. Nesta fase, há 100 satélites de pequena dimensão que foram encomendados à Airbus para a constelação OneWeb e um grande satélite que será lançado em 2028 para a constelação geoestacionária que está a ser fabricado pela Thales.
Mesmo posicionando-se, neste campo, um passo atrás dos americanos, a União Europeia lançou-se na construção de uma constelação de satélites própria com o projeto IRIS².
“Esta é uma constelação que será propriedade da UE e será operada por operadores de satélites europeus. E será construída por empresas europeias”, explica Joanna Arlington.
O objetivo é duplo: “aumentar a soberania europeia no espaço, para que os europeus tenham os seus próprios recursos, em vez de confiar nos americanos” e “apoiar a indústria espacial europeia”.
Assim, “há todo um ecossistema de empresas espaciais europeias que beneficiarão do IRIS², que é um projeto de 10,6 mil milhões de euros”.
“A tecnologia de órbita baixa mudou tudo”, assinala a representante da Eutelsat e essa foi a razão por que a companhia adquiriu em 2023 a OneWeb, que trouxe consigo uma frota de centenas de satélites LEO.
Para além de poderem ser colocados a curta distância da Terra, estes equipamentos asseguram níveis elevados de conectividade com baixa latência (isto é, um tempo de espera reduzido).
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Arlington acredita que os dispositivos vão desempenhar um papel fulcral na criação da “internet das coisas” e interconectividade automóvel, devido ao reduzido tamanho dos terminais que utilizam.
Há também novas tecnologias que se estão a expandir na área da comunicação móvel. Os serviços D2D (Direct-to-Device) permitem uma ligação direta entre satélites e telemóveis para chamadas de voz, troca de mensagens e internet, permitindo ter cobertura de rede em qualquer ponto do planeta. “Esta é a nova fronteira que já está a acontecer, que está iminente”, afirma.
Tudo isto justifica o investimento avultado de 2 mil milhões previsto até 2023, de uma empresa que, sendo privada, é detido em 13% pelo fundo soberano francês e em 10% pelo estado britânico.