20 out, 2016 - 07:20 • João Carlos Malta
A vida nas cidades é cada vez mais amiga da dor. O sedentarismo impera e passamos muitas horas ao computador em posições incorrectas. O resultado é que os problemas músculo-esqueléticos encontram terreno fértil para aumentar. E este é o tipo de dor com mais probabilidade em se tornar crónica.
Em Portugal, o problema está a crescer e já atinge três milhões de pessoas. Desses, cerca de um milhão sofre de dor crónica de intensidade “moderada ou severa”. Estes dados estão num estudo recente da autoria da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP), e que faz ainda uma estimativa dos custos que este "problema de saúde pública" tem para o país.
“Fizemos um estudo recente que revela que os custos directos são dois mil milhões de euros por ano, e 2,6 mil milhões em indirectos (baixas, reformas antecipadas e as perdas de emprego). Ou seja, tudo somado 4,6 mil milhões de euros por ano. O que é 2,7% do PIB, mais do que o défice deste ano”, explica José Castro Lopes, professor da FMUP, que estará nesta quinta-feira a abrir o 5.º Congresso da Associação Portuguesa para o Estudo da Dor (APED) a debater futuro do tratamento da Dor em Portugal.
Os custos financeiros são extremamente avultados, mas acrescem-se ainda os problemas que trazem aos doentes não só físicos mas também psicológicos. A dor é muitas vezes invisível. Não há uma perna partida para mostrar. E isso às vezes gera a desconfiança de quem rodeia afectiva e profissionalmente os doentes de dor crónica.
“Esse é um dos problemas. Ao contrário de outros sintomas não é objectivável, é subjectiva. Cada um é que sabe a dor que sente. O facto de não se encontrarem lesões biológicas e objectivas não quer dizer que a pessoa não sinta a dor. Em Portugal, é obrigatório avaliar a intensidade da dor tal como a pressão arterial. A dor é um sinal não é um sintoma, mas foi equiparada para dar visibilidade à dor”, explica.
José Castro Lopes afirma que a patologia crónica com maior dimensão são as lombalgias, “as vulgares dores de costas”.
“É muito frequente um doente ter dores nas costas e os raios X e outros exames imagiológicos não mostrarem qualquer lesão. Isso significa que o doente não tem lombalgias? Não. Apenas que não as conseguimos tratar”, resume.
O professor da FMUP não esconde que há algumas pessoas que procuram “obter ganhos com a dor crónica, pessoas que procuram ter baixa ou outro qualquer tipo de compensação do ponto de vista psicológico“. “Mas serão uma minoria e os profissionais de saúde estão habilitados para identificá-lo”, garante.
Poucos médicos e que sabem pouco
Há um problema adicional para os que sofrem de dor crónica. Há falta de médicos que sejam especialistas em dor. A maior parte são anestesistas, especialidade da qual há cada vez menos clínicos e que, por isso, são encaminhados para os blocos operatórios.
A isto soma-se que os médicos de uma maneira geral têm pouca formação na dor. Nas escolas é pouco abordada, explica o professor Castro Lopes. Por isso, muitas vezes os doentes andam de um especialista para outro até irem para uma unidade de dor.
Não há passes de mágica para resolver este problema. A prevenção é o primeiro passo com uma mudança de hábitos de vida, e “tratar mais eficazmente os casos de dor cronica e mais inicialmente”.