21 fev, 2025 - 17:04 • Isabel Pacheco
Durante quase vinte anos, António Ferreira viveu nas ruas de Braga. Há 12 anos que conseguiu o seu próprio teto. Abandonou o mundo das drogas e conheceu a mulher, Maria Helena. Pelo percurso, conta três anos no serviço de acolhimento da Cruz Vermelha Portuguesa (CVP) de Braga. Hoje, António acredita que, com ajuda e força de vontade, tudo é possível.
“Estive sempre na rua. Desde os 18 anos praticamente até aos 40. Sempre na droga”, revela António, com 49 anos que, apesar das dificuldades, recorda com orgulho o passado.
“Consegui tudo com muita luta e pedi ajuda em vários lados. Só não consegue quem não quer, ou quem não tem força de vontade”, garante o bracarense, um dos primeiros utentes do serviço de acolhimento temporário da CVP de Braga.
“Eu vi aquilo [centro] a abrir. Desde aí, comecei a fazer lá a minha higiene, a mudar de roupa, deixar a roupa suja e davam-me outra limpa e, assim, seguidamente, às vezes, de segunda a domingo”, relata.
Em 2024, a delegação de Braga da CVP recebeu 106 novos pedidos de ajuda. Em declarações, no âmbito do Dia Mundial da Justiça Social, que se assinalou esta quinta-feira, o presidente da Instituição, Júlio Faceira apontou para “um aumento” na procura por todas as respostas sociais.
“Temos vindo a aumentar o número de refeições, o número de utentes que usufruem de apoio psicossocial, dos nossos quartos de banho coletivos, da nossa lavandaria, dos cuidados de enfermagem, portanto, efetivamente têm vindo a aumentar”, relatou o responsável que se mostrou “preocupado” com a mudança de perfil das pessoas em situação de sem-abrigo, cada vez, mais jovens.
“O que é grave e é uma preocupação é que, enquanto há cinco anos tínhamos pessoas com mais de 65 anos na rua, hoje temos pessoas com 20 a 40 anos. Muitos deles trabalham e temos famílias completas”, alertou.
“Falamos de famílias em que ele e ela trabalham, mas, em consequência da dificuldade de assumirem os custos de uma habitação, continuam a habitar na rua”. Júlio Faceira antevê que a situação se agrave nos próximos tempos. Em causa estão as dificuldades em que vivem muitos imigrantes no nosso país.
“Vamos ter, muito provavelmente, um aumento muito significativo [de pessoas em situação de sem-abrigo] porque vemos muitos imigrantes que, em consequência de relações precárias em matéria laboral, infelizmente, estão gradualmente na rua. Essa franja para nós é uma preocupação”, admitiu Júlio Faceira revelando que, atualmente, o centro de emergência social de Braga acolhe uma “boa dezena de imigrantes”.
São pessoas que “estão em situação de sem emprego, alguns legalizados, outros não, mas os que não estão legalizados provêm do mercado de trabalho, mas vivem uma situação de extrema dificuldade”, explicou.
Diariamente, a delegação de Braga da CVP serve mais de 300 refeições e, entre o serviço de acompanhamento social e de acolhimento temporário, dá resposta a 210 pessoas, 25 continuam a viver na rua.