26 fev, 2025 - 07:30
"A fila é única. Os senhores que têm direito a atendimento prioritário têm de pedir aos cidadãos que vos concedam o lugar na fila".
A mensagem é transmitida por uma funcionária da Loja do Cidadão das Laranjeiras, onde, manhã bem cedo, já são algumas centenas as pessoas em fila. Na zona frente à porta principal, agora nas traseiras do edifício, concentram-se grávidas, homens e mulheres com crianças ao colo, pessoas em cadeiras de rodas ou de muletas e idosos.
Fernanda Pinto, que tem um atestado multiusos e que é prioritária, não quis acreditar que tivesse de ter de pedir a cada uma das pessoas na fila para ser atendida primeiro, por ser prioritária.
Para Fernanda, o atendimento nos serviços públicos piorou, "porque após o Covid, eles começaram a trabalhar em casa". Explica esta septuagenária que "se estão em casa não nos podem atender. E aqui, de certeza, há muita gente que não está a trabalhar", adianta, desconfiada, sublinhando a urgência em conseguir uma senha para atendimento.
"Avisaram-me que, para ter senha, o melhor seria marcar. Mas isso seria só para daqui a três ou quatro semanas. E eu tenho urgência, que o meu marido faleceu. E eu preciso do imposto de selo, para poder continuar a tratar das coisas".
Também está numa Loja do Cidadão, mas na do Saldanha, para conseguir uma senha para o IMT.
Flávio Silva pagou o averbamento para ter vidros fumados no carro, mas mesmo assim, e por alegado erro do Instituto de Mobilidade e dos Transportes, a polícia multou-o.
No último ano "nada mudou no atendimento" nos serviços públicos. "E digo-lhe já que nisto é uma vergonha", adianta, enquanto olha para o início da fila, percebendo que estarão pelo menos cinquenta pessoas á frente.
"Já ando aqui há 15 dias. Pela internet não há senhas nem nada... hoje saio daqui com o meu problema resolvido", desabafa
Não muito longe dali, no serviço de Finanças da Avenida Fontes Pereira de Melo, Cristina Henriqueta espera pela abertura sentada nas escadas de acesso a um edifício residencial.
"Já é a segunda vez. Vim na semana passada, mas quando cheguei já não havia senhas. Hoje vim antes das seis e já tinha 19 pessoas á minha frente".
É a segunda folga que perde para conseguir resolver o problema, aparentemente simples: a mudança de morada no seu número de identificação fiscal. Dela e das duas filhas.
Nada mudou no último ano.
"Não achei que tivesse melhorado nada. Continuamos a enfrentar filas, e às vezes chegamos cedo, não resolvermos a situação e temos de vir noutro dia", lamenta, acrescentando que "há divergências de informação de um lugar para outro, o que atrapalha bastante".
"Pedem determinado documento, de outra entidade, e quando o levamos dizem que não era aquilo, era outra coisa... Eles não falam a mesma língua".
A mesma sensação tem Ana Cristina, que veio de propósito de Ponte de Sor, com o namorado, para conseguir ser atendida na Conservatória dos Registos Centrais do Ministério da Justiça, na Rodrigo da Fonseca.
"Empurram de um lado para o outro. Estou aqui porque me disseram que aqui é a entidade responsável por toda a zona do país que não seja norte. Quem for do Norte tem de ir ao Porto", diz esta jovem, embrulhada numa manta e sentada numa cadeira de campismo, á porta da conservatória onde estarão já pelo menos vinte pessoas, à espera.
Ajeita um copo de papel onde o namorado lhe serve um chá, que trouxeram numa garrafa térmica, e assegura que, a julgar pela experiência que tem tido em vários serviços públicos, está tudo na mesma.
Nada mudou.
"Não. Eu penso que temos de nos humilhar para conseguir um documento de permanência, enquanto pagamos impostos e tudo... E não conseguimos nada. Nem financiar casa nem nenhum arrendamento com custo justo. Só conseguimos trabalhar, mesmo".
Atenta à conversa, encostada à parede, Marisa António concorda: nada mudou.
"Aqui abrem às nove horas e às dez dizem-me que os serviços já não estão a funcionar, porque já não há senhas. Agora, eu pergunto-me: Se eles largam às 16, porque é que às 10 horas já não há atendimento?"
Marisa lembra que "antigamente, chegava-se a qualquer hora" e eram atendidos.
Noutra zona de Lisboa, à porta do Centro de Saúde da Pontinha, Ana Lúcia Monteiro está sozinha, no meio do escuro. É a primeira da fila que se começa a formar, ainda antes das seis e meia da manhã. Não há outra forma de ser atendida, sem marcação.
"Continua tudo igual. Não mudou nada. Espero que mudem. Não sei em que ano, mas que mude"
Não faz sentido, diz, sair de casa de noite para estar ali, mais de duas horas, à espera que o Centro de Saúde abra. Mas é a única forma de conseguir senha para ser atendida por um médico.