14 jan, 2016 - 19:00 • João Carlos Malta , Dina Soares
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A eleição à Presidência da República tem duas candidatas, Maria de Belém e Marisa Matias. Na campanha tem sido recorrente ouvir as duas mulheres fazerem uso da condição de género para apelar ao voto. Será essa uma estratégia que rende votos?
Maria de Belém ainda na quarta-feira o fez. "Acho que em Portugal nós temos uma maturidade democrática que percebe bem a importância das mulheres no exercício da vida política", disse a candidata numa manhã que dedicou às mulheres e à desigualdade de género.
Já Marisa Matias, esta quinta-feira, questionava: “Como é que ao fim de 41 anos de democracia ainda nunca tivemos uma mulher eleita para a Presidência da República ou uma mulher eleita para primeira-ministra?”
Os especialistas ouvidos pela Renascença dizem que pode ser pouco eficaz chamar a questão do género para o debate político.
“Ser mulher, só por si, não traz vantagens e pode até ser negativo sublinhar esse facto por si só. O discurso de género não colhe. Deve surgir naturalmente através dos temas que se elegem para o discurso. Aliás, está provado que as mulheres não gostam de um discurso centrado na condição feminina”, defende Luís Bernardo, assessor político que esteve em várias campanhas socialistas (com António Guterres, José Sócrates e António José Seguro).
Feministas divergem
Já Maria Helena Santos, professora do Instituto Universitário de Lisboa com trabalhos académicos feitos sobre a questão do género na política, argumenta que “os estudos que têm sido feitos são contraditórios” sobre estas matérias. Até as “feministas têm posições diferentes”.
“Há mulheres que votaram pelo facto de a candidata ser mulher e outras que não”, sublinha, apesar de reconhecer que numa fase de afirmação do sexo feminino na política o factor género pode pesar.
Outra investigadora, Ana Espírito Santo, garante que a escolha da relevância do género como tema numa campanha “provavelmente não é muito eficaz”, embora reconheça que “possa convencer algumas (poucas) mulheres”.
“O que os estudos nestas áreas nos mostram é que os portugueses (sobretudo as portuguesas) são em geral defensores de uma maior presença de mulheres no poder político, mas também nos mostram que a igualdade de género não é uma questão central para eles”, enfatiza a professora do ISCTE com trabalhos feitos que têm como tema central o impacto na opinião pública do exercício do poder por mulheres.A professora diz que se torna evidente esse apelo ao voto com base no género em vários exemplos. Dois deles: “O cartaz 'uma por todos' de Marisa Matias” e “o uso do termo 'Presidenta' por parte de Maria de Belém”.
Por fim, o politólogo André Freire diz que tem dúvidas de que o género faça diferença. “A questão de género é importante, mas tenho a ideia de que a ideologia é anterior e hierarquicamente superior. Votar só por ser mulher seria um raciocino vazio”, avança. Ainda assim, entende que a questão de género, por ser identitária, pode ter força para algumas votantes.
Arquitectar a campanha de uma mulher é diferente?
Luís Bernardo dá o exemplo do Bloco de Esquerda. Segundo o assessor político, o partido apostou numa mulher para tentar aproveitar a onda positiva de Catarina Martins e da Mariana Mortágua. Mas alerta: “Esses resultados não se deveram ao facto de elas serem mulheres, mas sim devido à eficácia do seu discurso”.
O homem que arquitectou várias campanhas socialistas diz que “o planeamento de uma campanha no feminino tem especificidades”.
“Pode-se apostar mais no contacto directo, no envolvimento com o eleitorado e tirar partido disso. Os ambientes mais informais e mais afectivos podem ser explorados de forma mais intensa quando se trata de uma candidata”, garante o especialista.
Bernardo dá o exemplo da imagem. “A campanha de uma mulher também dá mais liberdade. Por exemplo, Angela Merkel, na última campanha, usou fundos escuros que lhe realçavam a imagem, uma vez que as suas roupas são, de forma geral, coloridas. Isso num homem seria impossível”.
E finaliza, argumentando que o ambiente humano que rodeia uma mulher “nas acções de campanha pode ser mais transversal”. “Não precisa de apostar em mulheres e crianças. Pode diversificar mais.”