26 fev, 2025 - 11:24 • José Pedro Frazão
O presidente da Conferência Episcopal ucraniana, D. Vitali Skomarovsky, defende lembra que os católicos devem perdoar os inimigos, mas não desistir da justiça, ou seja, de uma paz justa.
Em entrevista à Renascença, Skomarovsky, que é também bispo da diocese de Lutsk, diz que a guerra provocou perdas incalculáveis e que, em muitos casos, será difícil perdoar o agressor. Ainda assim, defende que o perdão é libertador.
D. Vitali Skomarovsky agradece o apoio dos portugueses e diz também que a guerra na Ucrânia mostrou que a mensagem de Fátima é atual no que toca à oração pela conversão da Rússia.
Como é que a comunidade católica na Ucrânia está a viver esta situação de saúde do Papa Francisco?
Em cada Sagrada Liturgia rezamos pelo Papa e lembramo-nos do Papa. Esta oração é para nós comum, todos os dias. Claro que, quando o Papa precisa especialmente da nossa oração - e agora estamos num momento em que ele carrega o fardo da doença, a cruz da doença - então toda a Igreja tenta apoiá-lo neste sofrimento.
A nossa oração pelo Papa é também uma expressão da nossa gratidão pelo facto de ele se lembrar de nós durante todos estes anos da guerra em larga escala. Esta é uma memória rara, pois em cada oração se lembrava da Ucrânia e rezava por ela.
Ao longo dos últimos 3 anos, o Papa manifestou desejo de vir à Ucrânia. Chegou a haver essa possibilidade? E quais foram os últimos contatos que o Papa teve com os bispos sobre a paz na Ucrânia?
O Papa tem um desejo ardente de visitar a Ucrânia, mas agora ele não pode vir. Seria uma visita de Estado, ou seja, seriam reuniões limitadas, em condições tão difíceis. Gostaríamos de receber o Papa como uma visita pastoral, para que tivéssemos a oportunidade de rezar com ele, mas, até agora, não temos essas condições.
Os nossos bispos encontraram-se pessoal e frequentemente com o Papa. Falaram sobre a situação na Ucrânia. E, claro, esses contatos diretos são muito importantes.
Durante estes anos, os mais próximos do Papa estiveram também aqui na Ucrânia também. Por exemplo, em julho do ano passado, o Secretário de Estado, Cardeal Parolin, presidiu a uma celebração em Berdichev, no santuário mariano.
Ao longo dos anos, houve alguns problemas de interpretação da posição do Papa sobre a Ucrânia. Algumas palavras foram interpretadas de uma forma pouco agradável pelas autoridades ucranianas, sobretudo quando o Papa expressou a vontade de falar com o lado russo. Esse assunto está terminado?
Sim, tem que se lembrar que, no geral, o Vaticano tenta ser, de alguma forma, um Estado neutro. Mas entendemos que, por exemplo numa situação como esta, é muito difícil manter essa neutralidade quando há um agressor e uma vítima. O Papa fala e lembra sempre a Ucrânia. Isso significa que a Ucrânia está no seu coração. E ele, como pastor, quer, antes de tudo, alcançar a paz. Esses esforços são, de facto, uma expressão desse desejo.
Houve algumas notícias que sustentaram a possibilidade de alcançar a paz na Ucrânia até à Páscoa., que pode estar relacionada com alguns esforços da Igreja Católica e da Santa Sé, para mediar a situação entre a Ucrânia e a Rússia. Estamos mais perto de um acordo de paz com a mediação dos católicos e da Santa Sé?
Pessoalmente, não tenho essa informação, mas sei que a Igreja Católica Romana esteve, e não apenas agora, nas negociações sobre a libertação de prisioneiros e das crianças que foram levadas para a Rússia. E essas ações da Igreja Católica tiveram efeitos. Terminaram com libertações concretas, trocas de prisioneiros, etc. Estamos muito agradecidos por isso, e celebramos o fato de que esses esforços diplomáticos foram realizados pelo Vaticano e que ele nos ajudou nesses assuntos.
Existem católicos na linha da frente da frente desta guerra. Ainda subsistem celebrações, como missas, em circunstâncias muito difíceis nesses lugares?
Existem capelães que servem nas forças armadas e que estão constantemente em zonas militares. Depois, existem grupos de católicos que, como voluntários, viajam nas linhas da frente. Quando há necessidade, os capelães também celebram a Sagrada Liturgia.
Não sei em detalhe em que áreas ainda se celebram missas nessas linhas da frente. Em Bakhmut, por exemplo, tínhamos uma paróquia onde havia missas. Agora é impossível. Nos territórios ocupados de Donetsk e Luhansk, tanto quanto sei, não há padres nossos. Tiveram que sair dessas regiões.
Do lado ucraniano, sempre que possível, não só há paróquias como os padres assumem serviços litúrgicos quando chegam a qualquer lugar. Claro que nessas áreas da frente de batalha, simplesmente todos os fiéis já não se encontram na zona.
Ouvi relatos de que nos últimos anos manteve-se a celebração de missas na Crimeia ocupada pelos russos.
Na Crimeia temos oficialmente paróquias. Há um bispo em Simferopol e há, não muitos, talvez 12 padres que ali trabalham. A Igreja opera ali legalmente, temos uma paróquia na Crimeia.
Houve sequestro de sacerdotes no território ucraniano controlado pelos russos. Ainda há padres em cativeiro?
Antes da invasão de larga escala em 2022, um dos nossos padres que operava perto de Donestk foi parado num posto de controlo. O seu carro foi confiscado, e ele foi preso e esteve 12 dias detido.
Durante a guerra, dois sacerdotes da ordem dos Redentoristas foram presos e libertados recentemente numa troca de prisioneiros que os trouxe de volta para a Ucrânia.
E se a paz vier, como pode um católico ucraniano perdoar os agressores?
O perdão está no coração da nossa fé. Isto aplica-se a cada pessoa individualmente, porque as feridas infligidas por esta guerra são muito diferentes. Há pessoas que foram obrigadas a abandonar as suas casas, há pessoas que perderam os seus familiares, os seus entes queridos. E, claro, o perdão aqui é muito difícil.
A fé ensina-nos que este perdão é necessário antes de mais para nós mesmos. Para que os nossos corações não sejam escravizados pelo ódio, ou por uma sede de vingança, por alguma raiva. É isso que nos destrói.
E depois pedimos sempre perdão a Deus, tal como nós perdoamos. Por isso, este perdão é também necessário para que os nossos corações sejam livres. É isto que pregamos. Cristo também perdoou os seus inimigos. Isto não significa que devemos abandonar a justiça. Rezamos para que a paz que aí vem seja justa em primeiro lugar.
Mas o perdão é necessário para nós, para os nossos corações.
Fátima tornou-se um epicentro mundial de oração pela Ucrânia. Houve a peregrinação da imagem de Nossa Senhora de Fátima pela Ucrânia. Que mensagem dirige aos católicos portugueses?
Antes de mais, esta guerra ensinou-nos que a mensagem de Fátima não morreu, é atual. É necessária oração pela conversão da Rússia. E muitas, muitas pessoas no mundo estão a rezar com esta intensidade.
Para os nossos irmãos e irmãs de Portugal, gostaria de expressar, em nome de todos os nossos fiéis e de todo o povo ucraniano, uma grande gratidão pela vossa oração, por se lembrarem de nós, por todo o tempo que nos dedicam, e especialmente por se lembrarem de nós nas orações.
O facto de tantas pessoas mostrarem tanta inspiração para nos apoiar, apesar de esta guerra durar tanto tempo, dá-nos muita força para não perdermos a esperança, para não ficarmos parados, para rezar, para lutar, para viver.
Que Deus vos abençoe. Muito obrigado pelas vossas orações e apoio.