26 fev, 2025 - 22:10 • Maria João Costa
Diz que a fotografia para si tem música. Ana Pinho Vargas é fotógrafa e assina a exposição “Silêncio” patente no Centro de Arte de São João da Madeira, no distrito de Aveiro, até 22 de março.
A artista vem de uma família de destacados músicos portugueses. É filha do pianista e compositor António Pinho Vargas e da cravista Ana Mafalda Castro. O seu irmão também é contrabaixista, mas Ana, que teve também formação musical, enveredou pela fotografia.
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A exposição “Silêncio” diz ter uma “banda sonora de uma vida e de uma infância muito feliz, rodeada de música de diversos tipos”. Pode parecer contraditório. Mas para a artista não é. As suas imagens têm música dentro, porque retratam o acervo musical do seu pai, António Pinho Vargas.
“Ele olha para a minha fotografia, não como a filha a fotografar o trabalho do pai, mas como um trabalho artístico e fotográfico”, diz orgulhosa ao estar a traçar este caminho artístico, sem que tenha também ela deixado de tocar.
Sendo uma exposição de fotografia sobre música, de onde nasce este título da exposição “Silêncio”?
O título “Silêncio” foi mesmo uma ideia para contradizer o trabalho em si, ou seja, as fotografias têm o trabalho artístico do meu pai, que é compositor e músico, esse lado da música e das partituras, do objeto físico em si. A contradição entre o silêncio e a música não está presente na fotografia, porque não tem som propriamente, mas a música em si tem música e a fotografia em si tem música.
A minha ideia sempre foi tentar fazer um projeto com o espólio do meu pai, mas que fosse uma fotografia minha.
Queria pegar no objeto e torná-lo algo novo, com outro significado.
Como é que foi esse mergulho no espólio? O pai deixou? Como é que foi entrar nesse espólio do António Pinho Vargas?
Tudo começou quando eu ainda vivia em Lisboa. Foi numa das cadeiras da minha licenciatura que tive o professor José Luís Neto, que é um fotógrafo português reconhecido, e o professor Aníbal Lemos, que é o diretor da galeria em que estou a expor este trabalho.
Eles ajudaram-me muito a conseguir entrar naquele espaço e naquele mundo. Eu estava a entrar no espaço pessoal do meu pai, e a começar também a sentir coisas com o trabalho.
Sempre gostei muito de fotografar, passava dias a fotografar o espólio dele. Tudo me trazia lembranças, o que é engraçado.
Nunca achei que fosse acontecer que os papéis fossem-me trazer lembranças de obras, de ver concertos dele. Tudo isso estava ligado ao meu trabalho da fotografia.
O pai sentiu-se à vontade de deixá-la tocar nestas partituras, mas de outra forma fotografá-las?
Ao início, não sabia o que é que eu ia lá fazer. Eu só dizia: “vou fotografar”, e, depois ia para o estúdio dele. De vez em quando, mostrava-lhe algumas fotografias e ele começou a apreciar a minha fotografia de outra maneira.
Ele olha para a minha fotografia, não como a filha a fotografar o trabalho do pai, mas como um trabalho artístico e fotográfico.
Eu achei muito interessante essa divisão que de certa maneira completa-se.
A Ana nunca viveu num mundo de silêncio. Tendo um pai pianista e compositor, e uma mãe cravista não se vive num mundo de silêncio, ou será que vive?
É uma boa pergunta. De certa maneira, sim. No sentido em que é uma casa cheia de música. É um ambiente muito artístico.
O meu irmão também é músico. Então, a nossa casa é tudo artistas, mas há momentos de silêncio em que cada um tem o seu espaço.
O título “Silêncio”, quando fiz este trabalho, foi muito em busca de como é que eu podia ver esta fotografia musicalmente. O que é que eu sentia com as minhas fotografias? E eu sentia sempre um silêncio delicado.
Era sempre uma delicadeza da fotografia que, para mim, conseguia mostrar isso para as pessoas que estavam a ver o trabalho.
Como é que a Ana chegou à fotografia e cortou um pouco com essa tradição musical da família?
É interessante, porque também estudei música. Comecei com o violino, depois toquei piano e depois cravo.
O meu instrumento final foi cravo. Ainda tive algumas aulas na [Orquestra] Metropolitana. A minha professora era uma ex-aluna da minha mãe. Eu gostava muito de tocar piano e muito de tocar cravo, e ainda toco, o que é interessante.
Às vezes estou em casa e vou para o piano do meu pai e toco as músicas dele.
Ele reage bem?
Ele gosta. Aliás, sempre que eu vou tocar, ele sai e fica na zona da sala a ouvir, o que é muito interessante. É diferente, a filha a tocar.
Mas acabou por se desviar da música?
Sim. Eu gosto da música, mas senti que a minha área não era essa. Senti que era muito mais das áreas das artes, pintura, fotografia. Ainda não sabia o que é que queria fazer.
Comecei na pintura. Gostava muito de aguarela. Mas gostava muito de fotografia. Desde sempre que era assim. Gostava de ver fotografia, livros. E na licenciatura comecei a gostar mais.
Depois, quando fui para o mestrado, aí é que comecei a ler livros de fotógrafos, ver trabalhos, comprar livros e comecei a entrar mesmo no mundo da fotografia. Foi uma experiência inesquecível fazer um mestrado.
O que é que lhe interessa fotografar? Consegue perceber qual é o seu campo de trabalho?
Neste momento, estou a fotografar analógico. Gosto imenso. Aqui no Porto e em Gaia, gosto de passear e fotografar tudo que me capta o olhar
Mas continuo com o meu trabalho artístico à parte, que é o trabalho de fotografia da música, da ligação com a música. No mestrado fiz outro trabalho, que é uma continuação do “Silêncio” que se chama “O Diário”.
Fiz um livro com fotografias, mas também tinha todo o tipo de pensamentos, esboços, coisas que eu sentia ao fotografar.
Acha que o facto de ter formação musical e de ter toda esta herança musical familiar ajuda a ser uma fotógrafa da música?
Sem dúvida. Ajudou muito no meu processo e na minha descoberta de o que é que eu queria ser.
Mas acha que afina o olhar como fotógrafa o facto de ter formação musical?
Sim, claramente, mas não só.
O facto de tocar piano e instrumentos, conseguir ler música e estar rodeada de música, tudo isso influencia o meu trabalho artístico.
E também a ligação emocional com a música em si, especificamente com o trabalho dos meus pais. Acho que, inevitavelmente, está relacionado com todo o meu projeto artístico.
A seguir esta exposição, o que é que se seguirá? Em que é que poderá vir a trabalhar?
Vou ter um projeto em que vou relacionar música com dança. Vou ter uma exposição em maio, no Corpus Christi. Trabalho com a Portingaloise, que é uma associação cultural de danças antigas. Assisto a ensaios, desenho, pinto e fotografo.
E também vou expor o trabalho de “O Diário” na Argentina, agora em março, em Buenos Aires.
Fico, de certa forma, contente com o que estou a conseguir individualmente. Tendo a influência que tenho, dos meus pais, como é óbvio, mas estar a conseguir criar o meu caminho individual é muito importante.
A música ficou para trás ou vai estar sempre ao pé do piano mesmo, ou de um cravo?
A música vai estar sempre presente. Mesmo a fotografia não tem som, mas para mim tem.
Que banda sonora que tem a exposição “Silêncio”?
Tem uma banda sonora de uma vida e de uma infância muito feliz, rodeada de música de diversos tipos.
Não só do meu pai, mas também da minha mãe, uma das cravistas portuguesas mais conhecidas. E do meu irmão também, que é contrabaixista.
Tudo influencia o meu espaço artístico e o que faço a partir dele.
Que banda sonora que teria esta nossa conversa?
Acho que poderia ser o “Tom Waits” [de António Pinho Vargas]. Não sei se concorda comigo, mas poderia muito bem ser [risos].