25 mar, 2025 - 12:29 • Maria João Costa
Deborah Colker passou semanas entre povos indígenas para se inspirar a criar “Sagração”, o espetáculo de dança que sobe ao palco do Teatro Tivoli BBVA, em Lisboa, a partir de quarta-feira.
Depois de esgotar quatro noites na sua última passagem pelo país com “Cão sem Plumas”, a coreógrafa brasileira que já criou espetáculos para o Cirque du Soleil traz a Lisboa o que diz ser a sua criação da “Sagração da Primavera” de Igor Stravinsky.
“É a minha versão”, diz à Renascença Deborah Colker, que explica que seguiu “os passos do Stravinsky”. “Ele relaciona o clássico com o primitivo. Quando compôs essa música, inspirou-se na música pagã russa, na música primitiva e misturou e relacionou com a música clássica”, detalha.
Mas este é um espetáculo que fala do Brasil. “Quero trazer a ‘Sagração da Primavera’ do Stravinsky para o agora, no meu país, no Brasil, falando a partir de mim, de quem eu sou”.
Para encontrar essa sua “Sagração”, Deborah Colker foi em busca dos “primitivos” do Brasil. “São os povos originários, os povos indígenas. E qual o lugar originário, primitivo do Brasil? São as florestas. Nesse espetáculo, os portugueses ainda não chegaram no Brasil. É antes da chegada”, sublinha a coreógrafa.
Em entrevista à Renascença, a criadora explica que conhece bem a música de Stravinsky. “Eu estudei piano há muitos anos”, lembra, e ao desenvolver esta coreografia, quis explorar “ritmos brasileiros, as influências primitivas brasileiras, não só dos povos originários, mas também de outros lugares do Brasil, como o Nordeste e o Norte do Brasil”.
Esta coreografia propõe uma reflexão sobre a vida no planeta. São 70 minutos divididos em 14 cenas onde o palco tem como cenografia um conjunto de 170 bambus com quatro metros de comprimento. Mas estes bambus são mais do que cenário, explica a coreógrafa: transformam-se em armas ou em canoas nas mãos dos bailarinos.
“Pela primeira vez tive um cenário que começa sem nada. Os bambus vão entrando e os bailarinos dançam com o bambu que vai sendo uma extensão desse corpo. Eles vão contando esse caminho evolutivo. Vão construindo lugares, um barco, uma casa e essa floresta. Essa planta se transforma numa arma de caça. Eles percebem que o bambu pode ajudar a sobreviver”, explica.
A direção de arte e a cenografia são de Gringo Cardia e os figurinos de Claudia Kopke e iluminação de Beto Bruel. “Sagração” vai estar em palco no Teatro Tivoli BBVA até 30 de março.