03 abr, 2025 - 01:20 • Lusa
Um medicamento experimental chamado mavoglurant pode reduzir o consumo de álcool e cocaína em pessoas com perturbação por uso desta droga, de acordo com os resultados de um novo ensaio clínico de fase 2, com 68 participantes.
O estudo, publicado na quarta-feira na Science Translational Medicine, concluiu que o grupo de participantes que recebeu mavoglurant usou geralmente cocaína em menos dias e também mostrou evidências de menor ingestão de álcool.
Embora sejam necessários ensaios maiores e a longo prazo, os resultados sugerem que esta droga deve ser mais explorada como terapia para a dependência de cocaína ou álcool, observaram os investigadores.
O consumo de cocaína continua a ser um problema urgente de saúde pública, uma vez que o seu uso indevido pode levar à morte prematura, complicações de saúde a longo prazo e problemas sociais para o utilizador, de acordo com um relatório publicado na revista.
Investigações anteriores mostraram que um recetor chamado mGluR5 desempenha um papel central na adição deste estupefaciente e no processamento de recompensas, sugerindo que pode ser um alvo para novas terapias.
E estudos em animais sugeriram que o bloqueio dos recetores inibe a autoadministração e a procura de cocaína em roedores.
Neste estudo de fase 2, Baltazar Gómez-Mancilla, da Universidade McGill, no Canadá, e investigadores de outros centros testaram os efeitos do mavoglurant, que inibe o mGluR5 e está também a ser estudado como tratamento para a síndrome do cromossoma X frágil.
Durante o teste de 98 dias, os investigadores administraram (por via oral) mavoglurant ou um placebo duas vezes por dia a 68 adultos com idades entre os 18 e os 57 anos com perturbação por uso de cocaína.
A equipa examinou as alterações na ingestão de cocaína através de autorrelatos retrospetivos dos participantes, bem como através da análise de amostras de urina e cabelo em busca de metabolitos de cocaína.
No geral, o grupo que recebeu mavoglurant consumiu cocaína em menos dias e apresentou evidências de menor ingestão de álcool.
O medicamento causou principalmente efeitos secundários ligeiros, como dor de cabeça e tonturas, e 76% dos participantes completaram o tratamento completo.
Os autores, também afiliados no Novartis Institutes for Biomedical Research, reconhecem que os seus resultados são limitados pela curta duração e pela pequena dimensão do estudo, e apelam a mais trabalho com populações mais diversas para analisar os efeitos a longo prazo do mavoglurant no consumo de cocaína.
Esteban Ortiz-Prado, professor e investigador na Universidade das Américas (Equador) e diretor do grupo de investigação One Health, observa que este é um ensaio clínico "bem elaborado e promissor" que aborda um dos maiores desafios da medicina da dependência: a falta de tratamentos farmacológicos eficazes para a perturbação do consumo de cocaína.
Os autores avaliaram o mavoglurant, um antagonista seletivo do recetor mGluR5, que apresentou uma "redução estatisticamente significativa" no consumo de cocaína em comparação com o placebo.
Além disso, foi observada uma redução paralela do consumo de álcool, o que pode indicar mecanismos neurobiológicos partilhados entre as duas substâncias.
No entanto, o estudo tem limitações importantes - também reconhecidas pelos próprios autores. A amostra era pequena, composta predominantemente por homens brancos, e a duração do seguimento foi curta.