03 abr, 2025 - 14:51 • Maria João Costa
“Algo vai mal no Reino da Dinamarca”, a famosa frase é dita por Hamlet num dos grandes clássicos de William Shakespeare, mas poderia ser uma frase de uma notícia que metesse Trump, a Dinamarca e a Gronelândia à mistura, nos tempos que correm.
O drama familiar do príncipe da Dinamarca sobe ao palco do Teatro Nacional de São João, no Porto, a partir desta quinta-feira. Este "Hamlet" com encenação de Nuno Cardoso faz o público olhar para o que o encenador diz ser “uma época charneira”.
“Vivemos agora numa época em que um conjunto de transformações geopolíticas nos instilam às vezes ao medo, outras vezes a raiva, outras vezes ao condicionamento”, lembra Nuno Cardoso em entrevista ao Ensaio Geral, da Renascença.
Este "Hamlet", para o qual conta com o elenco residente do São João – com os atores Joana Carvalho, Lisa Reis, Patrícia Queirós, Paulo Freixinho, Pedro Almendra e Pedro Frias é uma peça sobre um “campo de batalha”
“É uma história de família, de relações muito próximas. Dentro do campo de batalha em que se transforma essas relações, a ambivalência do ser, da nossa alma, a dúvida e de como a nossa alma é um imenso universo cheio de contradições, desafios e complicações levam a que a vida ganhe um caminho angustiante”, afirma.
Esta que é a peça mais longa escrita por Shakespeare, conta também com os atores Alberto Magassela, João Cravo Cardoso, Jorge Mota, Mário Santos e Sandro Feliciano. Nuno Cardoso aponta que é uma peça que nos leva a perguntar “de uma forma mais aguda, o que é que somos? O que é que não somos?”
“O medo do desconhecido, seja ele a morte, ou seja, qualquer desconhecido é nos mais premente. A revolta e a incapacidade de reagirmos a algo que sentimos que é injusto ou a maneira de reagir mal e extremada também é muito presente”, diz Cardoso neste olhar para o presente.
“Às vezes acho que vivemos numa época tão bombardeada por notícias que em si também são teatro que, às vezes, perdemos a noção de que isto sempre foi assim. Se assim não fosse há séculos atrás, o Shakespeare, não o teria escrito de uma forma tão pungente e tão precisa”, indica o encenador.
Esta encruzilhada em que as personagens se encontram pode ser visto até dia 27 de abril no São João, no Porto; depois fará uma digressão nacional com paragens no Cineteatro António Pinheiro, em Tavira, a 17 de maio, no Centro Cultural de Paredes a 24 de maio, no Teatro Aveirense a 30 e 31 de maio, e no Teatro das Figuras, em Faro, a 7 de junho.