27 mar, 2025 - 17:39 • Alexandre Abrantes Neves
Messiânico, salvador, milagreiro. O significado das palavras varia pouco, mas a tríade de sinónimos serviu a Gouveia e Melo para levantar (de novo) mais um pouco da ponta do véu sobre o tabu de uma candidatura presidencial.
Num almoço com mais de 200 pessoas num hotel em Lisboa, o antigo chefe do Estado Maior da Armada continuou sem esclarecer se vai ou não entrar na corrida a Belém. Mas, se avançar, deixa, desde já, claro que não se vai apresentar como um “messias”, que promete resolver todos os problemas do país.
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“Não estou a dizer que vá concorrer à Presidência, mas, votando em mim, [se acharem que] não precisam de fazer nada, porque os vossos problemas vão ser resolvidos por aquele milagreiro, [então] não votem em mim, por favor. Votem lá num outro milagreiro qualquer”, assinalou Gouveia e Melo, para logo a seguir dizer que a “evolução” do país está dependente de cada português e que a si lhe cabe apenas ser um “agregador”.
“Sou uma pessoa que, fruto da minha experiência e da minha maneira de ser também, congrego as pessoas, as vontades. É essa força interior que, às vezes, é quase inexplicável. que faz com que o grupo tenha uma melhor performance. Nós, militares, chamamos de força anímica – e o Presidente é muito importante para a força anímica”.
Presidenciais
"Depois das eleições assumirei a posição que acho (...)
Foi mais de hora e meia, entre intervenção e perguntas da plateia, e onde Gouveia e Melo nunca desfez a postura. Até quando lhe perguntaram se havia uma data para anunciar se avança ou não, o almirante não esclareceu, mas, nas entrelinhas, preferiu desviar a resposta para o neto.
“Agora, poderia fazer uma de duas coisas. Ir para casa descansar e estar com o netinho ou fazer outra coisa na vida. De facto, tenho estado pouco com o meu netinho. É a resposta que vos posso dar”, assinalou, passando a sorrir nas várias intervenções seguintes que lhe davam os parabéns pelo trabalho durante a pandemia ou que lhe pediam que avançasse para Belém.
A decisão sobre as presidenciais permanece fechada a sete chaves, mas Gouveia e Melo começa a abrir a porta ao pensamento político e às leituras que faz da atualidade.
Depois das críticas ao artigo no semanário Expresso, referiu várias vezes que não é contra os partidos, mas sim contra quem acha que as forças partidárias “são apenas uma pessoa”. Não falou de Marcelo Rebelo de Sousa, mas reafirmou que “provocar eleições” é o que causa instabilidade em democracia.
E, quando lhe perguntaram sobre as legislativas de maio, o almirante deu uma no cravo e outra na ferradura – pediu aos partidos para não se perderem no debate das questões éticas, mas avisou que os políticos precisam de “equilíbrio” no que toca à transparência.
“Acho que vamos correr o risco de discutir se o plano A, B ou C é mais imaculado ou menos imaculado do que o outro, em vez de discutir o que têm para nos oferecer. Não queremos anjos na terra, mas também não queremos pessoas que venham carregadas de uma cor muito negativa, não é? A certa altura, ninguém pode fazer política, a não ser um quadro partidário que nunca fez mais nada a não ser colar cartazes. Isso seria péssimo”, alertou.
Em toda a intervenção, Gouveia e Melo desviou-se dos nomes mediáticos e preferiu focar-se na história – Winston Churchill, Josef Estaline e Franklin Roosevelt foram alguns dos atores revisitados.
Mas a plateia insistiu em colocar o foco em Portugal. Luís Montenegro e Miguel Albuquerque foram mencionados para questionar se a justiça está ou não a entrar indevidamente no campo da política. E, aqui, Gouveia e Melo tirou da equação o papel do Presidente da República e colocou o ónus no governo e no parlamento.
“Se alguém quiser condicionar esse poder judicial, é através do poder legislativo. São eleitos, poderão criar as leis, que o poder judicial depois vai ter de impor. A única tentação que hoje o poder judicial não pode cair numa justiça de pelourinho, mediatizada, porque isso corrói o próprio sentido de justiça”.
Na primeira intervenção deste almoço-debate, Gouveia e Melo pediu a Portugal para “se preocupar” com a “nova ordem mundial”.
Assinalou os riscos dos “saudosistas que ainda não acordaram” para as mudanças no mundo e para a “lei do mais forte” que agora reina, alertou que o investimento na defesa pode “aprofundar assimetrias” na União Europeia e pediu aos líderes portugueses para contrariarem o “afastamento psicológico a estas questões”.
E perante uma plateia com nomes como a líder do Nova Direita, Ossanda Líber, o antigo presidente do Sporting, José de Sousa Cintra, e o presidente da Cruz Vermelha Portuguesa, António Saraiva, o antigo chefe da Armada pediu líderes “com mais vontade e virados para a ética”, que olhem para o mundo e “não para o umbigo”.
“Desejo-vos a vós, que estão aqui, muitos empresários, que sejam os comandantes e os capitães das novas caravelas portuguesas, que são as caravelas da prosperidade. Só assim é que a nossa sociedade também pode ser mais inclusiva, pode diminuir as assimetrias e responder ao pilar da democracia que é a equidade”, apelou.